“Gourmet” ou não “gourmet”, eis a questão…ou talvez não

19 Set

Comer bem, tirar partido máximo dos nossos sentidos enquanto se come, ter consciência disso, ser surpreendido à primeira garfada, viajar com os sabores, ser transportado para um imaginário através de texturas, paladares, aromas, pela história da origem ou criação do produto, tirar partido de produtos raros ou substancialmente diferentes, vibrar com pratos visualmente sedutores…ou simplesmente gostar de comer qualquer coisa apenas porque sim.

Nada disto é pecado. Satisfazer o palato, os sentidos e a imaginação é algo que (também) é possível com a comida, e não é censurável. Afinal o nosso corpo é mais um parque de diversões, do que propriamente um Templo.

O problema é quando começamos a rotular as coisas. Quando pegamos nos conceitos acima referidos, generalizamos e afirmamos: “o que tu queres dizer é que gostas de produtos gourmet”.

“Gourmet” é uma palavra que nos irrita solenemente e nos tira do sério, porque sem existir uma definição definitiva (passe o pleonasmo…), estereotipou-se que tudo o que é produto alimentar / refeição / restaurante de suposta alta qualidade, com apresentação especial e elevada sofisticação, com quantidade limitada ou origem muito específica, é afinal, “gourmet”.

Explicando melhor por oposição, tudo o que resultar de uma produção que não seja descuidada, industrializada ou massificada, de rápido processamento, e cujo aspecto visual não caia em esquecimento e fuja aos padrões comuns, pode ser considerado “gourmet”.

Parece que se eu for apanhar um molho de ortigas aos Himalaias, é um produto “gourmet”. Tal como um ramo de hortelã apanhado cuidadosamente no vasinho da varanda ou na traseira do restaurante. E torna-se ainda mais “gourmet” se no fim o preço for estupidamente caro. Porque se é “gourmet”, é elitista, e se é elitista, é preciso pagar por isso.

E como agora tudo o que é “gourmet”, aparentemente vende, existem então milhentas teorias para estereotipar o que é uma pessoa gourmet e qual o retrato robot deste tipo de consumidores. Defende-se que são cosmopolitas, dinâmicos, fashion, ecológicos, procuram novas experiências, etc. etc. Supostamente não são necessariamente abastados, mas querem compensar o dia-a-dia com a indulgência de um momento gourmet, podendo por isso pagar mais por essa indulgência. Também se definem estereótipos sobre o sítio perfeito para comercializar este tipo de produtos: supostamente devem ser vendidos em lojas “especializadas” em “gourmet”, porque a experiência contínua começa aí mesmo na exposição na loja, porque a informação aí também é melhor e maior, etc.

E é este conjunto de estereótipos e associações que se materializa na palavra “gourmet”, e que a adultera e destrói, no fundo contra todos os consumidores que procurem aquilo que refiro no princípio deste texto.

E se apenas quisermos em cima da nossa mesa um produto de qualidade, exclusivo, de apresentação refinada e com uma história para contar, proveniente de produtos nacionais, locais ou e de proximidade, e estivermos pouco preocupado com o local de compra ou de venda?

E se não formos cosmopolitas nem fashion, nem ecologistas, nem procurarmos novas experiências, e se apenas quisermos comer coisas que nos sabem bem?

E o mais importante: e se simplesmente quisermos isso tudo ou apenas uma das coisas, mas só estivermos disposto a pagar o preço justo em vez de pagar um exagero proveniente das regras especulativas do mercado e do hype que se gerou à volta da palavra “gourmet”? Será isso impossível de realizar? Será utópico? Talvez não…

“Gourmet” na realidade deveria ser uma palavra fora do dicionário, devido ao uso pernicioso e à carga (elitista) que lhe é conferida. No fundo ser ou não ser “gourmet” não é propriamente uma questão, é mais um “fait-divers”…

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